Gishin Funakoshi nasceu em 1869 em Shuri, distrito de Yamakawa-Cho, Okinawa, no mesmo ano da Restauração Meiji.
Era filho único, e logo após o seu nascimento foi levado para a casa dos seus avós maternos, onde foi educado, aprendendo poesias clássicas chinesas.
Algum tempo depois ele começou a frequentar a escola primária, Mestre Gishin Funakoshi , conheceu um rapaz de quem ficou muito amigo. Esse rapaz era filho de Yasutsune Azato, um dois maiores especialistas de Okinawa na arte do Karatê, e membro de uma família das mais respeitadas. Logo Funakoshi começava a ter as suas primeiras lições de Karaté. Como na época a prática de artes marciais era proibida em Okinawa, os treinos eram realizados à noite, no quintal da casa do Mestre Azato. Lá ele aprendia a dar socos, dar pontapés, e mover-se conforme os métodos praticados naqueles dias. O treino era muito rigoroso e o Mestre Azato tinha uma filosofia de treino que se chamava "Hito Kata San Nen", ou seja, "um Kata em três anos".
Enquanto praticava no quintal de Azato com outros jovens, outro gigante do Karaté, Mestre Itosu, amigo de Azato, aparecia e observava-os fazendo os Katas, fazendo comentários sobre as suas técnicas. Era uma rotina dura que terminava sempre de madrugada sob a disciplina rígida do mestre Azato, do qual o melhor elogio se limitava a uma única palavra: "Bom!". Após os treinos, já quase ao amanhecer, Azato falava sobre a essência do Karatê. Após vários anos, a prática do Karatê deu uma grande contribuição à saúde de Funakoshi, que fora uma criança muito frágil e doentia. Ele gostava muito do Karatê, mas como não pensava que pudesse fazer dele uma profissão, inscreveu-se, e foi aceite, como professor de uma escola primária, em 1890, aos 21 anos, aproveitando toda a sua cultura adquirida desde a infância. Esta deveria ser sua carreira a partir de então.
Prestou exame na Escola de Medicina de Tóquio, no qual foi aprovado, mas devido a uma nova lei que proibia aos homens o porte do CHON MAGE (símbolo de virilidade e da maturidade) não pôde realizar os seus estudos. E por esse motivo voltou-se para a pratica e estudo aprofundado do Karatê, no qual se tornaria posteriormente seu representante máximo. Ele tinha uma personalidade marcante e alguns aspectos como uma natural benevolência, uma distinção de maneiras, uma ímpar gentileza e respeito por todos, além de uma energia forte, muita coragem, determinação e uma força mental altamente capacitada, que o tornaram uma figura que, para muitos, era sinônimo de alguém "mais que humano", um "tatsujin" (indivíduo fora do comum) que contrastava ainda mais as suas virtudes com o seu pequeno porte físico (1,67m. para 67 Kg.), sendo admirado por seus contemporâneos.
No começo deste século, em 1902, durante a visita de Shintaro Ogawa, que era então o inspetor escolar de Kagoshima, à escola de Funakoshi em Okinawa, foi feita uma demonstração de Karatê. Funakoshi impressionou bastante devido ao seu status de educador. Ogawa ficou tão entusiasmado que escreveu um relatório ao Ministério da Educação elogiando as virtudes da arte. Foi então que o treino de Karaté passou a ser oficialmente autorizado nas escolas. Até aí o Karatê só era praticado atrás de portas fechadas, mas isso não significava que fosse um segredo. As casas em Okinawa eram muito próximas umas das outras, e tudo que era feito numa casa era conhecido pelas outras casas adjacentes.
Contra os pedidos de muitos dos mestres mais antigos de Karaté, que eram a favor de manter tudo em segredo, Funakoshi trouxe o Karaté, com a ajuda de Itosu, até o sistema de escolas públicas. Logo, as crianças na escola estavam aprendendo os Katas como parte das aulas de Educação Física. A redescoberta da herança étnica em Okinawa era moda, então as aulas de Karatê em Okinawa eram vistas como uma coisa boa.
Alguns anos depois, o Almirante Rokuro Yashiro (na altura Capitão) assistiu a uma demonstração de Karatê. Essa demonstração foi feita por Funakoshi junto com uma equipa composta pelos seus melhores alunos. Enquanto ele narrava, os outros executavam os Katas, quebravam telhas e, geralmente, chegavam ao limite dos seus pequenos corpos. Funakoshi enfatizava sempre o desenvolvimento do caráter e a auto-disciplina nas suas narrações, durante essas demonstrações. Quando ele participava, gostava de executar o Kata Kanku Dai, o maior do Karaté, e talvez o mais representativo. Yashiro ficou tão impressionado que ordenou a seus homens que iniciassem o aprendizado na arte.
Em 1912, a Primeira Esquadra Imperial da Marinha ancorou na Baía de Chujo, sob o comando do Almirante Dewa, que selecionou doze homens da sua tripulação para estudarem Karaté durante uma semana. Foi graças a esses dois oficiais da Marinha que o Karaté começou a ser comentado em Tokyo. Os japoneses que viam essas demonstrações levavam as histórias sobre o Karaté consigo quando voltavam ao Japão. Pela primeira vez na sua história, o Japão acharia algo na sua pequena possessão de Okinawa além de praias bonitas e o ar puro.
Em 1921, o então Príncipe Herdeiro Hirohito, em viagem para Europa, fez escala em Okinawa e assistiu uma demonstração de Karatê, liderada por Funakoshi, e ficou muito impressionado. Por causa disso, no final desse mesmo ano, Funakoshi foi convidado para fazer uma demonstração de Karatê em Tokyo, numa Exibição Atlética Nacional. Ele aceitou imediatamente, acreditando ser esta uma ótima oportunidade para divulgar a arte. Sua demonstração de Kata foi um sucesso. Ele pretendia retornar logo para Okinawa mas, depois da exibição, Funakoshi foi cercado por pedidos para ficar no Japão ensinando Karaté. Uma das pessoas que pediu para que ele ficasse foi Jigoro Kano, o fundador do Judô e presidente do Instituto Kodokan. Funakoshi resolveu ficar mais alguns dias para fazer demonstrações técnicas no próprio Kodokan.
Algum tempo depois, quando se preparava novamente para retornar a Okinawa, foi visitado pelo pintor Hoan Kosugi, que já tinha assistido a uma demonstração de Karatê em Okinawa, e pediu que ele lhe ensinasse a arte. Mais uma vez o seu regresso foi adiado. Funakoshi percebeu então que se ele quisesse ver o Karatê propagado por todo o Japão ele mesmo teria que fazê-lo. Por isso, resolveu ficar em Tokyo até que a sua missão fosse cumprida.
Kosugi foi uma das pessoas que convenceram Funakoshi a ensinar Karaté no Japão.
Ele também o convenceu a registrar todo o seu conhecimento num livro e prometeu presenteá-lo com uma pintura para a capa. Essa pintura, o Tora No Maki ("Tora" em japonês quer dizer tigre, e "Maki" em japonês quer dizer rolo ou enrolado), foi usada para ilustrar a capa do livro "Karate-Do Kyohan" para simbolizar força e coragem. A irregularidade do círculo indica que provavelmente ele foi pintado com uma única pincelada. O carácter ao lado da cauda do tigre (em cima à direita) é parte da assinatura do artista.
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No Japão, Funakoshi foi ajudado por Jigoro Kano, o homem que reuniu muitos estilos diferentes de Ju Jutsu para criar o Judô. Kano tornou-se amigo íntimo de Funakoshi, e sem a sua ajuda nunca teria havido Karaté no Japão. Kano introduziu Funakoshi às pessoas certas, levou-o às festas certas, caminhou com ele através dos círculos sociais da elite japonesa. Mais tarde, naquele ano, as classes mais altas dos japoneses convenceram-se do valor que o treino do Karatê possuia. Funakoshi fundou um Dojo de Karatê num dormitório para estudantes de Okinawa, em Meisei Juku. Ele fez vários trabalhos, entre eles o de jardineiro, para se poder alimentar, enquanto ensinava Karatê à noite.
Em 1922, fora escolhido para representar a arte de Okinawa numa apresentação em Tóquio para demonstrar a arte do Karatê. Como já tinha mais de cinquenta anos, não correspondia, ao mito do "budoka terrível" que o Japão procurava fazer sobreviver, na época, mas, mesmo assim, a sua apresentação foi muito bem sucedida. Muitos aspectos da personalidade de Funakoshi passaram a ser conhecidos, através de histórias, por aqueles que conviviam com ele, como por exemplo Genshin Hironishi, seu discípulo, que dizia que o seu mestre se opunha às gerações vindas após a Segunda Guerra Mundial, pois continuava a seguir hábitos da sua época, anterior a Primeira Guerra Mundial. Dizia ele que Funakoshi se recusava a frequentar uma cozinha ou a pronunciar certas palavras japonesas modernas, existentes na sua época, dizendo que sem elas passava muito bem. Uma outra peculiaridade interessante no seu comportamento, é que a primeira coisa que ele fazia era a sua toalete matinal que durava cerca de uma hora, durante a qual escovava os cabelos com infinita paciência, depois voltava-se em direção ao Palácio Imperial e saudava-o com respeito, inclinando-se e fazia a mesma saudação a Okinawa. Depois desses rituais tomava o chá da manhã, e ia trabalhar.
O Sensei Funakoshi deixou-nos muitos pensamentos que espelham a filosofia do Karatê e as suas técnicas, bem como a sabedoria oriental. Além disso, deixou-nos dois importantes caminhos que levam à uma vida harmoniosa, são eles o "DOJOKUN" e o "NIJUKUN" que são os lemas do Karatê, os quais devem ser seguidos por todos os praticantes do Karatê: o mais divulgado e mais prático é o:
DOJO-KUN
Esforçar-se pela formação do caráter
Ser uma pessoa conhecida por ajudar os outros é muito mais importante que ser conhecido por ter força ou por conseguir dar pontapés e socos bonitos. Ser querido é melhor que ser temido. Tornar-se uma boa pessoa é o mais importante de tudo para o karateca. Praticar o Karatê para obter principalmente paciência, perseverança, concentração e humildade. Em combate, desenvolver a humildade, a piedade, o controle.
Criar o Intuito do esforço.
Mesmo quando não se está a dar conta é muito importante estar sempre a tentar desenvolver a habilidade que não se possui. Quando se tem pouca paciência, é suportando gradualmente cada vez mais que se aumenta. Quando se é fraco, é suportando uma carga um pouco maior que se vai conseguir fortalecer. Esforçar implica ir além dos limites, sejam eles físicos ou espirituais. Este item deve ser treinado principalmente fora do DOJO: esforçar-se mais na escola (no estudo e no comportamento), em casa (no respeito e na obediência), e no trabalho.
Respeitar acima de tudo.
A essência do Karaté-Do é a cortesia, porque o seu propósito é o aperfeiçoamento pessoal ("Não nos aperfeiçoamos para lutar, mas lutamos para nos aperfeiçoar."), e este aperfeiçoamento deve revelar-se em todos os aspectos da pessoa. A pessoa deve pensar de modo mais correcto, sentir de modo mais harmonioso, conseguir movimentar-se com mais equilíbrio e precisão e relacionar-se com os outros de modo mais sensato. Não devem importar os motivos mas o nosso comportamento final. Por isto o "acima de tudo". Quem segue verdadeiramente este preceito não vai justificar depois uma conduta desrespeitosa, mas vai sempre demonstrar nas atitudes a ideia que abraça.
Conter o espírito de agressão.
As pessoas possuem em si o instinto animal que as impele a comportar-se como tal, e o animal agride quando ferido ou quando seu espaço pessoal é invadido e neste comportamento ele muitas vezes se expõe à morte. O homem, por ser superior (potêncialmente superior), se ofendido, tem a opção de chamar o ofensor à razão ou procurar uma situação mais confortável longe dele, se provocado, pode procurar uma visão diferente que o permita entender quem o está a provocar. Só quem busca conter o lado animal é que realmente pode alcançar toda a dimensão do Karatê-Do, porque, quando se está vazio de todos os pensamentos e intenções premeditadas, se pode refletir o mínimo impulso que sobre ele se projeta.
Fidelidade para com o verdadeiro caminho da razão.
A razão é a faculdade de avaliar, julgar, estabelecer relações lógicas e entender, e é um atributo exclusivo da espécie humana. O karateca busca tornar-se cada vez mais humano e, ao mesmo tempo que combate o lado animal, cultiva o espiritual. Tenta assim buscar os motivos, entender as consequências, refletir as atitudes, compreender o mundo e a vida enfim. O que distingue um aluno de um mestre ou sensei é que o sensei "nasceu antes" para a vida de reflexão em torno dos motivos que regem a vida.
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Em 1922, a pedido do pintor Hoan Kosugi, Funakoshi publicou o seu primeiro livro: "Ryukyu Kenpo Karatê", um livro que tratava dos propósitos e da prática do Karatê. Na introdução daquele livro ele já dizia que "...a pena e a espada são inseparáveis como as duas rodas de uma carroça".
O grande terremoto de Kanto, em 1º de setembro de 1923 destruiu as placas do seu livro, e levou alguns dos seus alunos com ele. Ninguém morreu com o tremor, os incêndios provocaram as mortes. O terremoto ocorreu durante a hora do almoço, no momento muitos fogões a gás no Japão estavam ligados. Os incêndios que ocorreram a seguir foram monstruosos, e maioria das vidas perdidas deveu-se ao fogo. Contudo, este livro teve grande popularidade e foi revisto e reeditado quatro anos após o seu lançamento, com o título alterado para: "Rentan Goshin Karatê Jutsu".
Em 1925, Funakoshi começou a pegar em alunos de vários colégios e universidades na área Metropolitana de Tokyo, e nos anos seguintes, esses alunos começaram a fundar os seus próprios clubes e a ensinar Karaté a estudantes destas escolas. Como resultado, o Karatê começou-se a espalhar por Tokyo.
No início da década de 30 existiam clubes de Karatê em cada universidade de prestígio de Tokyo. Mas por que estava Funakoshi a conseguir tantos jovens interessados no Karatê desta vez? O Japão estava a fazer uma Guerra de Colonização na Bacia do Pacífico. Eles invadiram e conquistaram a Coréia, a Manchúria, a China, o Vietnam, a Polinésia, e outras áreas. Então, os jovens que iam para a guerra vinham ter com Funakoshi para aprender a lutar, assim eles poderiam sobreviver ao recrutamento nas Forças Armadas Japonesas. O seu número de alunos aumentou bastante.
Por volta de 1933, Funakoshi desenvolveu exercícios básicos para prática das técnicas em duplas. Tanto o ataque de cinco passos "Gohon Kumite" como o de um "Ippon Kumite" foram usados. Em 1934, um método de praticar esses ataques e defesas com colegas de um modo menos restrito, semi-livre "Ju Ippon Kumite", foi adicionado ao treino. Finalmente, em 1935, um estudo de métodos de luta livre (Ju Kumite) com oponentes finalmente tinha começado. Até então, todo o Karaté treinado em Okinawa era composto basicamente de Katas. Mas agora, os alunos poderiam experimentar as técnicas dos Katas uns com os outros sem causar danos sérios.
Nesta época, em 1935, foi publicado outro livro: "Karatê-Do Kyohan". Este livro tratava basicamente dos Katas. Funakoshi era Taoísta, e ele ensinava Clássicos Chineses, como o Tao Te Ching de Lao Tzu, enquanto estava a viver em Okinawa. Funakoshi era profundamente religioso. Ele tinha muito medo que o Karatê se tornasse um instrumento de destruição, e provavelmente queria eliminar do treino algumas aplicações mortais dos Katas. Então, ele parou de fazer essas aplicações. Ele também começou a desenvolver estilos de luta que fossem menos perigosos. Funakoshi teve sucesso ao remover do Karatê técnicas de quebras de juntas, de ossos, dedos nos olhos, chaves de cotovelo, esmagamento de testículos, criando um novo mundo de desafios e luta em equipa onde somente umas poucas técnicas seriam permitidas. Ele fez isso baseado nos seus propósitos e com total conhecimento dos resultados.
Em 1936, Funakoshi mudou os caracteres Kanji utilizados para escrever a palavra Karatê. O caracter "Kara" significava "China", e o caracter "Te" significava "Mão". Para popularizar mais a arte no Japão, ele mudou o caracter "Kara" por outro, que significa "Vazio". De "Mãos Chinesas" o Karatê passou a significar "Mãos Vazias", e como os dois caracteres são lidos exatamente da mesma maneira, então a pronúncia da palavra continuou a mesma. Além disso, Funakoshi defendia que o termo "Mãos Vazias" seria o mais apropriado, pois representa não só o facto de o Karaté ser um método de defesa sem armas, mas também por representar o espírito do Karatê, que é esvaziar o corpo de todos os desejos e vaidades. Com essa mudança, Funakoshi iniciou um trabalho de revisão e simplificação, que também passou pelos nomes dos Katas, pois ele também acreditava que os japoneses não dariam muita atenção por qualquer coisa que tivesse a ver com o dialeto caipira (do interior) de Okinawa. Por isso ele resolveu mudar não só nome da arte mas também os nomes dos Katas. Ele estava certo, e o número de praticantes aumentou ainda mais.
Funakoshi tinha 71 anos em 1939, e foi nessa altura que ele deu o primeiro passo num Dojo de Karatê, a 29 de Janeiro. O prédio foi feito de doações particulares, e uma placa foi pendurada sobre a entrada e dizia: "Shotokan". "Sho" significa pinheiro. "To" significa ondas ou o som que as árvores fazem quando o vento bate nelas. "Kan" significa edificação ou salão. "Shoto" (ondas de pinheiro) era o pseudônimo que Funakoshi usava para assinar os seus textos quando jovem, pois quando ele ia escrevê-los recolhia-se em lugares mais afastados, onde pudesse ir buscar inspiração, ouvindo apenas o som dos pinheiros ondulando ao vento. Esse nome dado ao Shotokan Karatê Dojo foi uma homenagem dos seus alunos. Daí surgiu o nome de uma escola (estilo) que até hoje é cultivada em várias partes do mundo. SHOTO (pseudônimo de Funakoshi) e KAN (escola, classe). A "Escola de Funakoshi".
A necessidade de um treino nas artes militares estava em crescimento. Muitos jovens se estavam a amontoar no Dojo, vindos de todas as partes do Japão. O Karatê progrediu muito nessa onda de militarismo e estava a desfrutar de uma aceitação acelerada como resultado.
Finalmente o Japão cometeu um grande erro. O bombardeamento das forças navais americanas em Pearl Harbor a 7 de Dezembro de 1941 foi um erro. Numa tentativa de prevenir que as embarcações americanas bloqueassem a importação japonesa de matéria-prima, os japoneses tentaram remover a frota americana e varrer a influência Ocidental do próprio Oceano Pacífico. O plano era bombardear os navios de guerra e os porta-aviões que estavam no território do Hawai. Isto deixaria a força da América no Pacífico tão fraca que a nação iria pedir a paz para prevenir a invasão do Hawai e do Alasca. Infelizmente, o pequeno Japão não tinha os recursos, força humana, ou a capacidade industrial dos Estados Unidos. Com uma mão nas costas, os americanos destruíram completamente os japoneses na Ásia e no Pacífico. Uma das vítimas dos ataques aéreos foi o Shotokan Karatê Dojo que havia sido construído em 1939.
Com a América a exercer uma enorme pressão em Okinawa, a esposa de Funakoshi finalmente iria deixar a ilha e juntar-se a ele em Kyushu no Sul do Japão. Eles ficaram lá até 1947. Os americanos destruíram tudo que encontraram no seu caminho. As ilhas foram bombardeadas do ar, todas as cidades queimadas até o fim, as colinas crivadas de balas pelos cruzadores de guerra que se situavam bem longe da costa, e então as tropas varreram a ilha, prendendo todas as pessoas que estivessem vivas. A era dourada do Karatê em Okinawa tinha acabado. Todas as artes militares haviam sido banidas rapidamente pelas forças ocupantes americanas.
Primeiro uma, depois outra bomba atómica explodiram sobre as cidades de Hiroshima e Nagasaki. Três dias depois, bombardeiros americanos sobrevoaram Tokyo em tal quantidade que chegaram a cobrir o Sol. Tokyo foi bombardeada com dispositivos incendiários. Descobrindo que o governo do Japão estava a ponto de cometer um suicídio virtual sobre a imagem do Imperador, cartas secretas foram passadas para os japoneses garantindo sua segurança se eles assinassem uma "rendição incondicional". O Japão estava acabado, a Guerra do Pacífico também, mas o pesadelo de Funakoshi ainda havia de acabar.
Nesta época, Gigo (também conhecido como Yoshitaka, dependendo como se pronunciava os caracteres do seu nome), filho de Funakoshi, um promissor jovem mestre de Karatê no seu próprio direito, aquele que Funakoshi estava a contar para o substituir como instrutor do Shotokan, apanhou tuberculose em 1945 e posteriormente veio a falecer, porque teimosamente recusava-se a comer a ração americana dada ao povo japonês faminto.
Funakoshi e sua esposa tentaram viver em Kyushu, uma área predominantemente rural, sob a ocupação americana no Japão. Mas, em 1947, ela morre, deixando Funakoshi retornar a Tokyo para reencontrar os seus alunos de Karatê ainda vivos. Depois da guerra acabar, as artes militares tinham sido completamente banidas. Entretanto, alguns dos alunos de Funakoshi tiveram sucesso em convencer as autoridades de que o Karatê era um desporto inofensivo. As autoridades americanas concederam então, o recomeço da prática do Karatê, porque não tinham idéia realmente do que era o Karatê e porque também, alguns homens estavam interessados em aprender as artes militares secretas do Japão, então as proibições foram eliminadas completamente em 1948.
Em Maio de 1949, os alunos de Funakoshi movem-se para organizar todos os clubes de Karatê universitários e privados numa simples organização, e eles a chamaram de Nihon Karatê Kyokai (Associação Japonesa de Karatê). Eles nomearam Funakoshi como o seu instrutor chefe. Em 1955, um dos alunos de Funakoshi consegue arranjar um Dojo para a NKK.
Em 1957, Funakoshi tinha 89 anos de idade. Ele foi um professor de escola primária e um estudante de Karatê. Ele mudou-se para o Japão (e não é um pequeno ato de coragem) e trouxe o Karatê consigo em 1922, dando ao Japão algo de Okinawa com o seu próprio jeito pacifista. No processo, ele perdeu um filho, a esposa, o prédio que os seus alunos fizeram para ele, o seu lar, e qualquer esperança de uma vida pacífica. Ele suportou uma Guerra Mundial que resultou em calamidade nacional, e ele treinou os seus jovens amigos e conheceu as suas famílias apenas para os ver ir lutar e serem mortos pelas forças invencíveis dos Estados Unidos. Ele viu o Japão ser queimado, ele viu os antigos templos e santuários serem totalmente aniquilados, ele viu bombardeiros enegrecerem o sol, e ele viu como um pilar de fumo negro que subia de cada cidade no Japão e que envenenava o ar que ele respirava. Ele viu o Japão cair da glória para uma nação miserável, dependendo dos suprimentos de comida e das roupas dos seus conquistadores. O cheiro do fumo e o cheiro dos mortos, os berros daqueles que foram deixados para morrer lentamente, o choro das mães que perderam os seus filhos e das esposas que nunca mais iriam ver os seus maridos, o medo, o ruído ensurdecedor dos bombardeiros B-29's a voar sobre a sua cabeça aos milhares, os clarões como os de trovões por todo o país quando as bombas explodiam em áreas residenciais, os flashes de luz na escuridão, à espera no rádio para poder ouvir a voz do Imperador pela primeira vez, somente para anunciar a rendição, a humilhação de implorar comida aos soldados... os intermináveis funerais e famílias arruinadas e lares destruídos. Tentemos imaginar o que ele suportou!
A lição mais importante que ele nos ensinou está expressa numa das suas histórias narradas por um de seus discípulos: Uma vez quando passava pelo Dojo principal de Jigoro Kano, "o fundador do Judo", ao caminhar pela rua, ele parou e fez uma pequena prece em frente ao Kodokan. Também se estivesse a conduzir um automóvel, ele tiraria o seu chapéu se passasse em frente ao Kodokan. Os seus alunos não entenderam porque estaria ele a rezar pelo sucesso do Judo. Então ele explicou: "Eu não estou a rezar pelo Judo. Eu estou a oferecer uma prece em respeito ao espírito de Jigoro Kano. Sem ele, eu não estaria aqui hoje".
Gishin Funakoshi, o "Pai do Karatê Moderno", morreu em 26 de Abril de 1957. No seu túmulo negro, em forma de cruz, estão as palavras "Karatê Ni Sente Nashi" – "No Karatê não existe atitude ofensiva".
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"Alguém cujo espírito e força mental, se fortaleceram através das lutas com uma atitude de nunca desanimar não deve encontrar dificuldades em enfrentar algum desafio, por maior que ele seja. Alguém que suportou longos anos de sofrimento físico e agonia mental para aprender um soco ou um pontapé, deve ter condições de encarar qualquer tarefa, por mais difícil que ela seja, e de executá-la até o fim. Sem dúvida nenhuma, uma pessoa com essas características aprendeu verdadeiramente o Karatê-Do."
Mestre Gichin Funakoshi
